Foto: Pe. José O. Cister

 

Aos 78 anos de idade, 52 de vivencia no Brasil e 50 anos de sacerdócio, Padre José Hehenberger fala sobre sua história e vida cristã pautada na fé e na ação. Pe. José recebeu a reportagem do Tribuna Regional na capelinha da Casa do Repouso, bairro Bananeira, Jacobina-BA, mostrando símbolos sacros, e o Santo Sudário, prova material da fé cristã sobre a morte e ressurreição de Cristo, lugar de sepultamento de Jesus crucificado, estampado em uma das paredes da capelinha, onde fica evidente as marcas de sangue e do corpo do nazareno.

 

      Foto: Pe. José mostra foto do Santo Sudário, símbolo vivo da fé católica.

 

 (Por Ediane Bispo e Edvaldo Araújo)

TR – Padre José, conte-nos um pouco de sua história de vida e trajetória cristã?

José Hehenberger – Nasci na Áustria em 20 de fevereiro de 1940, tenho dois irmãos e duas irmãs. Minha família é de tradição católica. Sempre fui ligado a fé a terra, pois meus pais eram pequenos agricultores. Aos 26 anos vim para o Brasil, e aos 28 ordenado padre no Mosteiro de Jequitibá. Em 1979 vim para Jacobina. Aqui ajudamos a fundar instituições como a Casa de Repouso (1994), uma continuidade ao trabalho de Padre Alfredo com tratamento natural de saúde; o Centro de Educação Integrada- CEI (1993); Moradias para famílias carentes na Estrada do Boiadeiro; e em 1985, juntamente com o leigo José de Assis, fundamos a FEPPAHJA. Recentemente fui visitar o papa Francisco. Não conseguir falar com ele, mas deixei pedidos de orações, mais flexibilidade em alguns aspectos das celebrações e na designação dos líderes religiosos católicos. Atualmente celebro na paróquia de Várzea do Poço.

TR – Por que decidiu ser padre, e desde então como tem sido essa vivência?

José Hehenberger –  Acredito que com três anos de idade já tinha essa vocação, pois quando me perguntavam o que queria ser dizia que “queria ser de Deus”. Aos 11 anos tive mais clareza. Um dia discutindo com meu irmão falei para encerramos aquela briga, pois ano seguinte iria embora. Minha mãe assustada perguntou para onde eu iria, e eu disse-lhe que ia para o seminário. Ela disse que eu deveria falar com meu pai. Eis o desafio, ele estava lutando na II Guerra Mundial, pouco vinha em casa. Até que numa trégua ele voltou e numa tarde em que estávamos arando a terra, e eu falei que desejava ser padre. Ele só disse: “ser padre é coisa muito importante. Tem que pensar direito.” Então aos 12 anos fui para o seminário, de lá para o mosteiro onde fui ordenado.

TR – Sabemos que a igreja católica é dividida em pelo menos duas correntes, uma mais espiritualista- a carismática – e uma que se preocupa mais com o evangelho vivenciado através da ação social- a teologia da libertação. Com qual mais o senhor de identifica?

José Hehenberger – É importante ver o exemplo de Jesus, que ele não só orava. Ele curava, ensinava. A fé deve ser transfigurada na ação. Vejam Mateus 25,31-46, um exemplo de que devemos ajudar os irmãos, e no julgamento final Deus vai nos cobrar isso. Não adianta orar e não dar de beber a quem tem sede, de comer a quem tem fome. Jesus é o grande exemplo de amor e compaixão pelos humildes. É missão dos cristãos evangelizar, orar e também combater as injustiças sociais.

Foto: Pe. José ora e mostra símbolos da Igreja Católica.

TR – Além do seu trabalho religioso, o senhor também tem um importante trabalho social, na educação, na moradia. E porque um religioso se propor a tais causas? Como começou esse engajamento e dentre tantas ações, qual o senhor destacaria?  

Logo que fui ordenado, o bispo me deu a missão de buscar alunos na comunidade para fundar uma escola agrícola. Montei no lombo de um animal e bati de porta em porta. Reunimos a turma e fundamos a primeira Escola Agro Profissional da região. Lá fui educador do internato e coordenador das oficinas de mecânica geral, soldador, de mecânica de auto, de carpintaria e da fazendinha modelo para alunos de 16 a 18 anos.

Eu destaco a luta pelo direito a terra, a missão de levar respeito aos que trabalham nela e mostrar a esta gente a capacidade de mudar suas vidas. É importante que os políticos tenham a consciência do direito à terra e promovam a justiça. A terra não é de ninguém, “a terra é do senhor”, deve ser compartilhada de maneira justa para todos os filhos de Deus.

TR – De onde vêm os recursos para se fazer tudo isso?

José Hehenberger – Os recursos vêm de doações, de pessoas da comunidade, de amigos da Áustria que sabem da minha luta no Brasil.

TR – O senhor já foi perseguido por causa desse engajamento?

José Hehenberger – Sim. Quando eu lecionava na Escola Agro-profissional, ensinava as pessoas a cultivar a terra, por isso fui acusado de fomentar o pensamento de reforma agrária, e depois foi transferido para Miguel Calmon onde atuei de 1972 a 1974.

Em 1975 fui transferido pra Rui Barbosa, onde fiquei até 1978. Lá juntamente com a comunidade fundamos a Animação Cristã no Meio Rural – ACR, por isso também fui criticado. Em 1979 cheguei em Jacobina, passei a me incomodar com a pobreza e miséria existente, e por isso fui alvo de perseguições e novamente transferido. Em 1989 fui enviado para um lugar seguro, depois retornei para essa região e voltei a me preocupar com questões da terra. Existia muita injustiça e ignorância na época. Fomos para a zona rural, conversar com os agricultores, falar sobre seus direitos, a necessidade de um sindicato de agricultores e de mais políticas públicas para esse povo. Foi desta época que também nasceu a FEPPAHJA. Logo, fui ameaçado de morte, de emboscada armada por alguns fazendeiros de Jacobina. A igreja vendo essa situação e temendo por algo pior, me transferiu para Itararé. Em novembro em 1990, o bispo me designou uma pequena região nas redondezas de Jacobina na paróquia São José. Mas foi uma luta, sempre sendo contestado por tentar ajudar as pessoas a ter acesso a seus direitos.

TR – Como o catolicismo poderia usar a internet para aproximar as pessoas da igreja e promover a evangelização?

É um importante meio de comunicação, é uma ferramenta muito boa ser usada para o bem, especialmente para divulgar o evangelho, pode nos ajudar a socializar o conteúdo bíblico, não só as representações dele, mas as palavras as escrituras, as reflexões. É relevante levar esperança as pessoas através da palavra de Deus.

TR – Padre José qual mensagem o senhor deixaria para sociedade de modo geral e aos leitores do TR?

Fiquem com Jesus, pois ele é justo, é amor, é a verdade. Nele se encontra a paz e a alegria, sigam Jesus e as pessoas que defendem sua visão. Estejam conscientes e percebam a visão daqueles falsos profetas e políticos que preservam a violência em nome de Deus. Inclusive, exponho meu temor e indignação para esta situação provocada. O Brasil vive um momento político em que ninguém deve se omitir para defender a dignidade do cidadão, defendendo mais justiça e respeito de todos.

 

 

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