Quem, como eu, esperava que a horda bolsonarista se conformasse com a derrota nas urnas e que afundasse em lágrimas toda a essência do ódio político exercido ao longo dos últimos anos, enganou-se redondamente. Ficou claro, após o frustrado assalto aos palácios sedes dos Três Poderes, em Brasília, que essa gente é bastante perigosa e não pode ficar sendo vista apenas como um simples meme de internet. Deveriam ser tratados desde o início – quando começaram a montar os acampamentos golpistas em frente aos quartéis do Exército – com o rigor da Lei e enquadrados como criminosos que são.
É preciso enxergar os episódios do infame dia 8 de Janeiro como um espetáculo ardilosamente planejado para ficar gravado na memória coletiva de maneira traumática, em retaliação à festa de posse do presidente Lula, ocorrida uma semana antes, marcada por grande euforia social. Toda a simbologia do “mar vermelho” que ocupou Brasília e a mensagem de retomada de um governo popular e de união nacional, feriram o orgulho da cafonice verde-amarela e aí não teve Rivotril que acalmasse os ânimos dos bolsoterroristas. Eles decidiram partir para a guerra e nos seus mais profundos delírios acreditaram piamente que tomariam o poder pela via militar.
Movidos por narrativas falsas e mergulhados em um ambiente de desinformação, os bolsonaristas radicais armados de celulares transmitiram ao vivo o rastro de destruição, fazendo cair por terra a lenda de que manifestação violenta é coisa de esquerdista. A isso, a psicologia social denomina dissonância cognitiva, ou seja, a contradição entre a maneira como o indivíduo se comporta e a maneira como ele pensa. Mas, não é preciso ser nenhum psicólogo ou estudioso para entender que a turba de fanáticos bolsominions sofre de uma doença neurodegenerativa, que afeta o sistema nervoso causando agressividade, paranoias e alucinações.
Em tempo real o mundo inteiro assistiu às cenas de horror dignas de um filme do Zé do Caixão. Mais trash, impossível. Nas lives, as últimas bestas apocalípticas, envoltas em bandeirol verde-amarelado, babavam, urinavam e defecavam nos símbolos da República. Produziam provas contra si mesmos. Destruíam tesouros nacionais e espalhavam detritos no Distrito Federal, anunciando a nova ordem a ser imposta pela extrema-direita, alicerçada no terror fascista e personificada na figura de um caudilho verde-oliva. É que eles são machões, mas adoram uma dita-dura!
Os ataques antidemocráticos aos Três Poderes da República são a cristalização do bolsonarismo e a sua mais completa tradução. Ficou claro que eles marcham em direção ao vandalismo e ao terrorismo. Falharam nesta intentona, mas não é possivel dizer que foram derrotados. Do ponto de vista do espetáculo midiático, eles conseguiram impactar corações e mentes. A extrema-direita deu o seu recado, violento, caótico, para dizer que permanecerá presente na vida nacional.
A tolerância ao acampamento em frente ao QG do Exército, em Brasília; a colaboração de militares e policiais com os golpistas; e a trama urdida pelo ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do DF, Anderson Torres, revelada na “minuta do golpe” [um rascunho de decreto, encontrado em seu armário pela PF, prevendo intervenção militar na Justiça Eleitoral para mudar o resultado das eleições presidenciais], são fatos que demonstram que ou o presidente Lula aproveita o fortalecimento do seu governo e promove profundas mudanças nas Forças Armadas, ou governará sob a tutela de fuzís e baionetas, assombrado pelo fantasma do golpismo. Isto é, se conseguir governar.

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