Uma negritude pulsante, expressa na pele, no traço, na atitude! Evandro Augusto espalha a sua força ancestral consciente da sua representatividade e legado, seja em terras diamantinas ou para além mar. Formado em Design Gráfico, é reconhecido pela originalidade das suas criações e por uma estética nascida do lápis antes de ir para o computador. Sem romantizar, Evandro sabe de si, sabe dos desafios de ser preto em uma sociedade racista. No mês em que a ancestralidade vinda de África vira pauta, ele é o nosso entrevistado, porque novembro vai passar e é preciso estar pronto para o combate.
TR – O que é ser um homem negro pra você?
Evandro – Sem romantizar: É estar pronto para combater qualquer ato diário de discriminação racial comigo mesmo ou com um próximo – seja com uma amiga, amigo, irmã, irmão, conhecido, desconhecido, enfim, é não tolerar algo desse tipo e saber lidar com as situações da maneira melhor possível. Ser um homem negro com cabelo afro-black, tatuado, artista é fugir de um rótulo social comum e essa consciência precisa estar pronta pro que pode tentar nos diminuir. Romantizando: É ter a cor que brilha com o poder da ancestralidade, apesar das cicatrizes históricas presentes. É tempo de ressignificar o ser potente que cada pessoa preta é e buscar escrever a nossa história da forma que não foi contada no passado.
TR – Você já enfrentou alguma situação de racismo?
Evandro – Várias. Por algum tempo, muita coisa passou “despercebida” por achar que sempre é com viés de brincadeira ou do “sem querer, sem pensar”, mas depois que fui estudando sobre o assunto, percebi que essas situações sempre acontecem. Um comentário maldoso, um olhar de julgamento, um racismo estrutural ou uma pergunta que não cabe. Esse papo aqui não é sobre vitimismo como muitos racistas e racistas camuflados acham, é sobre entender e fazer quem não entende saber que há e que pode se atentar a essas questões.
TR – A sua estética já foi tratada como barreira?
Evandro – Sim! Sempre há o julgamento e o conceito prévio, fato. Hoje, eu percebo que o movimento negro e as pessoas pretas estão mais empoderadas e externalizando cada vez mais o seu poder em ter cabelos naturais, em fazer atividades e trabalhos com resultados incríveis, em entrar em debates e diálogos sobre raça, e isso faz com que essas barreiras caiam para algumas pessoas, outras não.
TR – Como a sua ancestralidade influencia o seu trabalho, a sua arte?
Evandro – Minha ancestralidade sempre caminhou com a arte, me considero artista desde criança – desenhando, pintando, fazendo música. Meu trabalho atual foi resultado de uma escolha demorada do meu destino. Como vivemos numa sociedade que desvaloriza o movimento artístico em sua grande maioria, eu não queria arriscar um investimento e tempo em um curso que fosse da arte, desacreditava mesmo, mas depois que entendi minha trajetória, minhas afinidades, decidi fazer vestibular em Design Gráfico, que hoje é minha formação acadêmica pelo Centro Universitário Jorge Amado. Na época e hoje entendo a ancestralidade dos meus bisavós, avós, pais e dos que vieram antes de todos esses e que fortalecem as minhas ideias, minha sensibilidade em entender arte como um instrumento de transformação de pessoas, de projetos e ter um resultado pautado em referências.
TR – Quais são suas maiores referências, na vida e no trabalho?
Evandro – Minha mãe e meu pai serão sempre minhas referências pela educação que me ensinaram e de tentar me deixar pronto pro mundo. No trabalho, tenho tantas pessoas pretas que me inspiram e que enxergo uma potência enorme ao ponto de passar energia mesmo sem a conhecê-las, outras que já conheço, também passam esse poder através de conversas, ensinamentos, dicas e presença. Brinco que depois que conheci o argumento e música do Emicida, (artista independente, preto e brasileiro), o meu discurso sobre essa pauta foi começando a ser mudado. A Djamila Ribeiro, (mulher preta e escritora), e vários outros nomes que fazem a nossa fala ecoar por muitos espaços que precisam ser ocupados.
TR – Por que a representatividade é importante?
Evandro – Acredito que a representatividade de identidade, seja negra ou não, é muito importante para que possamos reconstruir uma sociedade que é altamente racista, além de machista e homofóbica. Representatividade negra é enaltecer as falas e empoderar o preto no seu lugar na equidade social, precisamos caminhar pra esse equilíbrio. A ideia da história contada em livros de que pretos vieram apenas do trabalho escravo e não de uma história de África, de Reis e Rainhas, de referências para várias coisas, de um território rico em vários sentidos. A representatividade de pessoas pretas reafirma esse passado não contado, vem tentando virar as linhas editoriais, por meio das passarelas de moda, das campanhas publicitárias, das bonecas pretas com mais facilidade de compra, com as vagas para pessoas pretas não oportunizadas em cargos, em sua maioria, para brancos e outras situações. Enfim, é sobre representar o que realmente somos como essência e potência adormecida por conta dos livros escritos por pessoas que não entendem as nossas dores.
TR – A gente vive em um território de identidade com forte raiz quilombola, como a gente pode contribuir para que essa ancestralidade seja mais reconhecida e valorizada?
Evandro – Externalizar os nossos sentimentos pode ser um grande passo para que os próximos cheguem, expor nossas dores nos meios corretos, nos livrar ou tentar nos livrar dessas cicatrizes históricas e vividas e tentar ressignificar isso. É preciso curar muita coisa antes de colocar nossa identidade à ser reconhecida e valorizada, a nossa cultura, a nossa arte, as nossas forças. Entendo que passando por esse processo anterior, nossa força será multiplicada no futuro. Estamos vivendo a era do Afrofuturismo que é fomentar o belo, o novo, o poder criativo, a transformação de algo jamais visto com referências que fazem muito sentido e que tem um fundamento grande e quente por trás.
TR – Como a gente pode se educar para contribuir com a luta antirracista?
Evandro – É não aceitar nenhum tipo de racismo, nenhum. Dialogar, abrir rodas de conversas sobre, discutir, debater, fazer entender e ler sobre o tema e reproduzir o aprendizado. Sugiro um livro da Djamila Ribeiro: Peque- no manual antirracista. Tenho esse exemplar em minha empresa e faço questão de deixar exposto pra quem quiser ler, e que logo de cara entenda que naquele ambiente não será tolerado nenhuma situação de racismo.

Formação de chapa antecipada do Governo para 2026 pode “entrar água”, afirma Lúcio Vieira Lima
Prefeita de Jacobina expõe em rede social lista com o nome “Alterações” e dados de funcionários do município
Noelson da Caatinga é o favorito para presidir a Câmara de Vereadores de Jacobina: Votos de Maurício e Miry serão decisivos
Especialista alerta sobre os perigos do uso irrestrito de medicamentos
“É o vínculo com pessoas, não com telas, que nos protege, salva e fortalece.”
Jacobina institui a Secretaria de Políticas para as Mulheres