Foto: Joan Sodré

“Me preocupo muito com o universo e com a natureza. Falo das cosias que são belas e das que não são, que estão precisando ser concertadas”. 

 

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Conhecido pelo nome artístico de Joan Sodré, o cantor e compositor José Antônio Sodré, 62 anos, é natural de Brotas de Macaúbas-BA, filho do poeta Manoel Rodrigues Sodré e de dona Isabel Sodré de Amorim, casado com Rosa Amélia, pai de três filhos e avô de um garoto.

Joan Sodré está completando trinta e seis anos de carreira, e em Jacobina se consolidou como um dos principais artistas. O artista representa, em vários aspectos, uma intelectualidade influenciada pelos movimentos artísticos dos anos 80, época da ditadura militar no Brasil e de surgimento dos mais diversos movimentos sociais e artísticos brasileiros, dentro da ótica da cultura popular.

Num papo descontraído, com seu estilo irreverente e muita simplicidade, o cantor/compositor falou ao Tribuna Regional sobre música, sua história e desafios da vida artística.

Questionado sobre sua carreira musical, Sodré recorda de sua vinda para Jacobina, numa época em que havia diversas razões a serem defendidas no país, a exemplo do processo de redemocratização, do movimento Diretas Já, lutas sociais e o desenvolvimento de associações e sindicatos.

“Ingressei na música aos 18 anos tocando clarinete na Filarmônica de Xique-Xique. Em seguida fui convidado para tocar sax na banda Preces. Em 1979 passei a tocar na banda The Jetson. Nesse mesmo ano ocorreu uma enchente no Rio São Francisco que alagou diversas cidades ribeirinhas, inclusive Xique-Xique, e em função disso, a banda mudou-se para Jacobina, e eu vi também. Chegando aqui amei a cidade e me estabeleci até os dias atuais”, disse Sodré.

Por tamanha exaltação das belezas da cidade em suas canções, a Câmara de Vereadores o homenageou em 2013, com o Título de Cidadão Jacobinense, em reconhecimento ao seu prestígio artístico e por difundir a cultura do município através de suas composições e por onde tem passado.

Embora tenha iniciado sua carreira como saxofonista nas citadas bandas, e não diretamente no vocal, nesta época Sodré já tinha composições próprias e já almejava ser cantor.

Quando ainda estava na banda The Jetson, lançou em 1982 o disco “Apocalipse”, contendo apenas duas canções. Em seguida, deixou a The Jetson e seguiu carreiro solo, lançando o disco compacto duplo “Grito de Liberdade”, em 1984, com quatro canções autorais. Em 1986 lançou o LP “Vampiros de Nossa Terra”, com oito canções, e em 1990, o LP “Eclipse Humana”. Em 2016, gravou o CD “Interrogação”, trabalho mais recente do artista. Estes são alguns dos principais trabalhos da discografia ao longo da carreira.

Frequentemente, Sodré é confundido com o cantor Raul Seixas, pelo estilo musical, músicas de letras fortes e semelhança da voz. Questionado sobre quais os artistas que mais influenciaram ou busca inspiração, Sodré afirma que tiveram vários, sendo Raul Seixas um deles, porém, que ao longo de sua vida tem uma personalidade artística própria. “Em relação a Raul, tenho sim, claro, muitas influências, porém tenho minhas próprias características, ando com minhas próprias pernas, tenho uma identidade artística própria. Raul foi um grande artista, inclusive fui convidado para fazer turnê com os Panteras para representar o Raul, fizemos vários shows Brasil afora, e para mim foi um prazer imenso fazer essa participação.”

Joan Sodré defende com entusiasmo a música regional, o pensamento cultural nordestino, especialmente no seu trabalho, na escolha dos seus temas e na composição metafórica dos seus versos, e a constante busca de inspiração nas letras alegóricas, o que possibilita oferecer ao público um entendimento abstrato das realidades brasileiras, deixando também a abertura para outras interpretações. Com relação as temáticas abordadas em suas músicas, Sodré afirma que tem se preocupado em levar reflexões sobre questões diversas da humanidade, tanto locais como globais.

“Me preocupo muito com o bem da nação, com a terra que é o nosso patrimônio. Tenho falado sobre as questões políticas, sociais, sobre a igualdade social, pois creio que é um direito do ser humano viver bem, não importa se aqui no Brasil, na África ou em qualquer lugar do mundo. Me preocupo muito com o universo e com a natureza. Trabalho muito com o surrealismo, o sentido metafórico, com a poesia. Falo das cosias que são belas e das que não são, que estão precisando ser concertadas”, explicou.

O cantor relata de que forma suas músicas pertencem ao legado cultural jacobinense. Canta o estilo “rock do sertão” misturado com filosofia e poesia, compõe numa perspectiva crítica e ao mesmo tempo imaginativa, explorando artifícios linguísticos para transmitir o espírito musical de maneira lúdica, buscando na humanização de suas canções diferentes formas para obter uma compreensão simbólica da realidade existencial de quem escuta seu trabalho.

Questionado sobre a pirataria no Brasil, Sodré diz que despreza o comércio pirata, pois, isso inviabiliza o sucesso de artistas que trazem a poesia, maior complexidade textual e melódica em suas canções, ressaltando que “a massificação de músicas de letras de baixa qualidade” é amplamente impulsionada pela pirataria, facilitando que estas obras chegam aos ouvidos dos nossos jovens, ofuscando o sucesso de artistas com músicas de qualidade. “Na cultura, as pessoas geralmente me procuram, mas infelizmente a gente está carente dessa música de qualidade, que realmente não temos. Temos só produções comerciais. É importante e necessário ter todos os gêneros, desde que tenha vaga para você e para mim, pois se ficar só no comercial, e aí? A que tipo de música terão acesso nossos netos e bisnetos daqui a trinta ou quarenta anos? Como estará a música poética, se esta geração atual já não valoriza tanto?”

O entrevistado também abordou sobre as principais dificuldades encontradas para se inserir e conseguir fazer sucesso na carreira musical, destacando que o maior desafio tem sido a questão financeira, assim como, a falta de valorização artística,desde os consumidores da indústria cultural a produtores de eventos, que muitas vezes pagam um cachê muito aquém do potencial do artista. “Me entristeço e me angustio ao ver meu trabalho e de muitos outros artistas, que tem como fonte de suas obras temas vigentes na sociedade, quase não conseguir espaço nos tempos atuais. Outra questão, lá fora ter mais reconhecimento que no local onde atua. Meu trabalho, por exemplo é mais valorizado lá fora que aqui. Também acho injusto – não estou desprezando o artista iniciante -, o artista que começou agora ser mais bem pago que o que já tem uma carreira consolidada, que lota as apresentações de público”, disse.

Sodré também recorda de momentos marcantes de sua carreira, como viagens para realização dos shows em diversos locais da Bahia e do Brasil, destacando sua participação no Festival Canta Nordeste de 1995, no qual foi vencedor da Etapa Bahia e se classificou para a etapa Norte Nordeste, se apresentando em São Luís do Maranhão, onde disputou em nível nacional com outros artistas consagrados da época. Sodré ainda comenta sobre a concretização do sonho de ter um disco gravado, lembrando o lançamento do Vampiros de Nossa Terra gravado em Jacobina e da festa em comemoração ao feito.

Foto: Joan Sodré, show no Centro Cultural de Jacobina/BA, 2018.

Ao final da entrevista, Sodré revelou que tem músicas novas para lançar, brincando que “na música não é como o futebol, que tem prazo de validade, pelo contrário, o tempo vai passando e vamos nos aprimorando”, deixando uma mensagem para Jacobina e os artistas que estão começando agora: “Eu amo Jacobina, aqui é um lugar que se alguém falar mal tá falando mal de mim. Aos artistas que estão começando, entre sabendo que é difícil a caminhada, entre para contribuir, para somar, e não somente para ganhar dinheiro, pois, se você entrar somente para ganhar dinheiro não estará fazendo nada para os jovens, entre pelo amor a música”, concluiu.

 

 

Ouça “Lágrimas da Noite” uma das principais canções de Joan Sodré

Ouça a música “Canção preferida” de autoria de Joan Sodré:

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