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Centenas de médicos canadenses reclamam do aumento dos próprios salários

TRagora 6 anos atrás

Em um movimento que só pode ser descrito como totalmente canadense, centenas de médicos da província de Quebec estão protestando contra o aumento de seus salários com o argumento de que já recebem muito dinheiro.

Até a tarde desta quinta-feira, 8, mais de 700 médicos, residentes e estudantes de medicina tinham assinado uma petição online pedindo o cancelamento do aumento. O grupo Médicos de Quebec pela Saúde Pública (MQRP, na sigla em francês) é composto por defensores do sistema público de saúde e criou a petição em 25 de fevereiro.

“Nós, médicos de Quebec que acreditam em um sistema público forte, nos opomos ao recente aumento de salário negociado por nossas federações médicas”, diz o texto, em francês.

O grupo diz ainda que não poderia, em sã consciência, aceitar a elevação nos pagamentos enquanto as condições de trabalho continuarem difíceis para outros profissionais da área – incluindo enfermeiras e funcionários administrativos – e também enquanto pacientes “convivem com a falta de acesso aos serviços básicos em razão dos cortes drásticos dos últimos anos”.

Nos últimos meses, um sindicato de enfermeiras de Quebec tem pressionado o governo a resolver a falta de profissionais nos hospitais, além de fazer lobby pela aprovação de uma lei para reduzir a quantidade de pacientes que cada profissional pode se responsabilizar.

O sindicato diz que seus membros estão cada vez mais sobrecarregados, o que resultou em uma série de protestos nos últimos meses para pressionar por melhores condições de trabalho.

Médicos pedem que premiê de Quebec, Philippe Couillard, redistribua recursos aprovados para aumento salarial em outras áreas da saúde

Médicos pedem que premiê de Quebec, Philippe Couillard, redistribua recursos aprovados para aumento salarial em outras áreas da saúde Foto: EFE/ Gonzalo Fuentes / Pool MAXPPP

Em janeiro, a situação foi retratada por uma postagem que viralizou no Facebook após a enfermeira de Quebec Émilie Ricard publicar uma foto sua, com os olhos marejados, depois do que descreveu como um turno noturno exaustivo.

Émilie afirmou que como era a única enfermeira em seu andar, teve que cuidar de mais de 70 pacientes. Além disso, o trabalho a deixou tão estressada que ela teve cãibras que a impediam de dormir. “Este é o retrato de (ser) enfermeira”, escreveu a profissional, criticando o ministro de Saúde de Quebec, Gaétan Barrette, que alega que a reforma do sistema de saúde é um sucesso.

“Não sei onde você está obtendo suas informações, mas não é na realidade da enfermagem”, escreveu Emilie. “Estou devastada pela minha profissão, estou envergonhada pela pobreza do atendimento que forneci, ainda que dentro do possível. Meu sistema de saúde está doente e morrendo.”

A publicação de Émilie foi compartilhada mais de 55 mil vezes e teve mais de 22 mil curtidas.

“Sempre há dinheiro para os médicos, mas e para os outros (profissionais) que cuidam dos pacientes”, questiona Nancy Bédard, presidente do sindicato das enfermeiras de Quebec, em declarações ao Global News.

Apesar das críticas, a federação de médicos especialistas de Quebec chegou a um acordo com o governo em fevereiro para aumentar os salários dos 10 mil médicos especialistas da província em 1,4%, elevando os custos dos atuais US$ 4,7 bilhões para US$ 5,4 bilhões em 2023, segundo a Canadian Broadcasting Corp (CBC).

Hoje, o salário médio de um médico especialista em Quebec já é alto – em média, US$ 403.537 ao ano – quando comparado com a província vizinha de Ontário – média de 367.154 ao ano -, segundo dados da CBC.

“A única coisa que parece estar imune aos cortes (do sistema de saúde) é o nosso salário”, diz a petição do MQRP. “Ao contrário das declarações do primeiro-ministro (de Quebec, Philippe Couillard), acreditamos que é possível redistribuir os recursos para o sistema de saúde de Quebec para melhorar a saúde da população e cumprir com as necessidades dos pacientes sem colocar os profissionais nos seus limites.”

Ainda não está claro se o movimento conseguirá impedir o aumento dos salários. Barrette, o ministro da saúde, comentou a questão pouco depois de a petição ser criada. “Se eles acham que recebem muito, podem deixar o dinheiro sobre a mesa”, afirmou em entrevista à CBC em fevereiro. “Garanto que farei bom uso dele.”

O ministro também disse que a situação a qual alguns trabalhadores de saúde são submetidos, como as enfermeiras, é algo que “tem que receber atenção total do governo”, segundo o Toronto Star.

“Temos o dinheiro para resolver esta situação”, afirmou Barrette ao jornal. “Isso não significa que temos uma quantidade infinita de dinheiro, mas temos a capacidade de resolver esta questão definitivamente.” / THE WASHINGTON POST

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