Em crescente disputa com governadores de estado acerca da condução da crise do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro é pior avaliado do que eles neste quesito.

É o que revela pesquisa do Datafolha, que ouviu 1.558 pessoas de 18 a 20 de março. Feita por telefone para evitar contato com o público, ela tem margem de erro de três pontos para mais ou para menos.

Bolsonaro tem sua gestão da pandemia aprovada por 35%, enquanto governadores são vistos como ótimos ou bons em seu trabalho por 54%.

Mesmo o Ministério da Saúde é mais bem avaliado que o presidente: 55% aprovam o trabalho da pasta de Luiz Henrique Mandetta.

Bolsonaro tem protagonizado episódios polêmicos desde que o novo coronavírus tornou-se o tema central de governos de todo o mundo, nas últimas semanas.

Primeiro, o presidente minimizou o perigo, dizendo que se tratava de “histeria” propalada pela mídia.
Depois, insuflou manifestações públicas em seu favor e contra outros Poderes.

No dia 15, participou de ato e abraçou pessoas mesmo estando sob recomendação de isolamento devido aos casos de contaminação na comitiva de sua viagem aos EUA.

A esses episódios se colocaram em oposição governadores como João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ), que têm enfrentado com graus draconianos diferentes a crise, mas adotando atitudes proativas enquanto criticam o Planalto.

O paulista, particularmente, tem buscado apresentar-se como um líder mais responsável e com apelo nacional —no sábado (21), sugeriu que moradores do estado colocassem bandeiras do Brasil em suas janelas como forma de união na crise.

Mesmo Mandetta acabou na linha de tiro de Bolsonaro, já que desobedeceu o chefe e apoiou pessoalmente os esforços de Dória, que governa o estado mais afetado do país.

A situação aparentemente se acalmou quando o ministro participou de entrevista coletiva com Bolsonaro na quarta (18), na qual teceu vários elogios ao presidente.

A taxa de aprovação ao trabalho de Bolsonaro se confunde com o apoio que ele vem registrando nas últimas pesquisas, o que indica uma cristalização de sua base.

Igualmente, consideram ruim ou péssima sua gestão da crise 33%, enquanto 26% a avaliam como regular e 5%, não sabem.

Naturalmente, isso precisa ser aferido por pesquisas com metodologias idênticas, já que a atual foi feita por telefone e a série histórica de aprovação do presidente é colhida presencialmente.

Outro dado significativo, que deverá influenciar os crescentes debates acerca da governabilidade sob Bolsonaro, é que apenas 15% dos ouvidos que votaram nele no segundo turno se dizem arrependidos.

Isso impactará a formulação de táticas de políticos que vinham apostando no desgaste mais acentuado do presidente, levando a ruptura.

Por outro lado, quem se arrepende assume uma visão mais crítica do presidente. Isso em relação ao conjunto avaliado em perguntas acerca do desempenho de Bolsonaro.

Mas o transbordo da polarização política para a avaliação do desempenho presidencial não se verifica, contudo, de forma imediata na estratificação de resultados.

Alguns grupos que usualmente apoiam o presidente mantêm sua aprovação no caso do vírus, como os homens (42% de ótimo e bom, ante 29% das mulheres).

Mas o presidente perde apoio significativo entre os mais ricos (renda acima de 10 salários mínimos, 51% de ruim/péssimo) e mais instruídos (com ensino superior, 46%).

Isso pode sugerir um padrão de mudança, especialmente se a situação econômica se deteriorar ainda mais devido à pandemia.

Já o corte regional reproduz, de grosso modo e a despeito das diferenças metodológicas, o padrão dos mapas de orientação política recentes.

A condução do Planalto da crise é rejeitada por 41% dos nordestinos, 34% dos moradores do Sudeste, 24% daqueles do Norte e Centro-Oeste e 23% dos sulistas.

Como se vê, o Sul segue uma fortaleza do bolsonarismo —lá, ele registra a maior aprovação de desempenho sobre o coronavírus, 42%.

Também é notável que o apoio aos governadores não é necessariamente em oposição ao do presidente.

Segundo um cruzamento feito pelo Datafolha, o índice de aprovação de governadores na crise chega a recordistas 69% justamente entre aqueles que também avaliam bem o trabalho de Bolsonaro.

O Sul é a região em que os chefes estaduais estão mais bem avaliados, com 61% de ótimo e bom. A seguir vêm Norte/Centro-Oeste (56%), Sudeste (52%) e Nordeste (51%).

As atitudes mais notórias de Bolsonaro na crise foram mal avaliadas pela população, indica a pesquisa.

Concordam com a avaliação presidencial de que há “histeria” acerca do novo coronavírus 34% dos ouvidos, enquanto a assertiva é rejeitada por 54%, ante 3% que nem concordam nem discordam e 8% que dizem não ter opinião.

Já o episódio do ato na praça dos Três Poderes, no dia 15, foi reprovado por 68% e aprovado por 27%, enquanto 4% não opinaram.

Aqui, quando se cruza a questão com o índice daqueles que têm muito medo do coronavírus (36% da população), a taxa de reprovação sobe 78%.

Como a Folha mostrou neste domingo (22), a população brasileira está assustada com a emergência sanitária causada pela pandemia. Para 88%, trata-se de uma questão séria.

Além dos 36% que se dizem com muito medo, há outros 38% que relatam ter um pouco de temor. A chance de ser infectado pelo patógeno é estimada como possível por 83% (20% alta, 33% média e 30%, baixa).

Hábitos diversos foram mudados e, para 73%, medidas mais duras como a quarentena que foi anunciada por São Paulo no sábado (21) são necessárias e desejáveis.

O comportamento do presidente continua sendo um fator de divisão. Para 20%, ele se comporta de maneira adequada ao cargo sempre, e 27% acham que ele o faz na maioria das vezes.

Na outra metade, 26% creem que Bolsonaro não se porta como um presidente, e 20%, que ele é assim na maior parte das vezes.

O grupo que rejeita totalmente a forma com que Bolsonaro se comporta salta para 34% entre aqueles com nível superior, grupo que usualmente dá mais apoio a ele.

A pesquisa apresenta um quadro desafiador e nuançado para o presidente, que vinha perdendo apoio político de forma acelerada devido à crise com o Congresso acerca do manejo de R$ 30 bilhões do Orçamento.

A questão esteve no cerne dos atos contra o Legislativo e o Supremo Tribunal Federal no dia 15, que não foram maciços, mas reverberaram pela presença de Bolsonaro.

A crise agora ganhou o componente imprevisível do coronavírus, que exigirá respostas políticas responsáveis, mas que serão consideradas ativos eleitorais em 2022.

PESQUISA FOI FEITA POR TELEFONE PARA EVITAR CONTATO COM PÚBLICO

A pesquisa Datafolha realizada de quarta (18) a sexta-feira (20) utilizou o método telefônico para evitar o contato pessoal entre pesquisadores e os 1.558 entrevistados em meio à pandemia.

Os limites impostos pela técnica telefônica não prejudicaram as conclusões devido à amplitude dos resultados apurados e pelos cuidados adotados. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou menos.

Esse método não se compara à eficácia das pesquisas presenciais feitas nas ruas ou nos domicílios. É por isso que, apesar de aproximadamente 90% dos brasileiros possuírem acesso pelo menos à telefonia celular, o Datafolha não adota esse tipo de método em pesquisas eleitorais, por exemplo.

O método telefônico exige questionários rápidos, sem utilização de estímulos visuais, como cartão com nomes de candidatos.

Além disso, torna mais difícil o contato com os que não podem atender ligações durante determinados
períodos do dia.

Assim, mesmo com a distribuição da amostra seguindo cotas de sexo e de idade dentro de cada macrorregião, e da posterior ponderação dos resultados segundo escolaridade, os dados com o método telefônico não são comparáveis com pesquisas de rua.

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